domingo, 21 de março de 2010

O CASARÃO

Este é o último casarão
que restou na cidade;
arquivo abalroado de memória,
ressonância de passos repetidos milhões de vezes
pelos velhos corredores.
As paredes internas, são murais pintados de sangue
vertido das histórias de vampiros,
contadas às crianças nas noites de agosto.
As fotografias expostas nos cantos
lembram cenas de um filme em preto e branco:
pequenas e grandes cenas cotidianas;
alegria, dor, nascimento e morte:
o eterno repetir da aventura humana.
No sótão, os arcanjos guardam o pergaminho
da historia das Mil e uma noites.
No quintal, a serpente vigia o fruto proibido
para que Adões e Evas não possam tocá-lo.

sexta-feira, 19 de março de 2010

À PESSOA

Admiro o guardador de sonhos
que os armazena por gosto
sem medo de parecer louco.

Invejo o homem telúrico
que faz da terra,
extensão do corpo.
..............................................

Não fugirei à sina
de versejador,
catador de palavras
na tarefa inglória
de agarrà-las
aqui, ali, alhures...
e depois, jogá-las
no buraco do tempo.

CABRALINO

Eu, estrangeiro
aqui no trópico
tomei de assalto
a casa de mãe Joana.

Errando o caminho
aportei em Cabrália
Eu, corpo estranho
tornei-me posseiro
do teu corpo.

Meu catecismo
aniquilou tua alma
minha ira sádica
queimou a tua carne.
Cínico, lacrimejei
sobre as cinzas de Galdino.

sábado, 13 de março de 2010

JOGO DOS BONS

João Caetano estava  impaciente naquele dia. Ele queria matar o tempo, fazer alguma coisa para sair do marasmo, mas indeciso, andava de um lado para outro, sem um objetivo definido. Na parte da manhã, as coisas estavam tranquilias, no entanto, depois do almoço, tentou tirar um cochilo, mas  o sono não veio. Depois de dar várias voltas em torno do largo dos Açorianos, ele pega a Borges e vai caminhando em direção à zona sul. No cruzamento com a  Avenida Ipiranga, pára, acende um cigarro, depois continua em frente. Na Padre Cacique , nota que há um movimento de povo uniformizado. Vê gente com a camisa do Grêmio e gente com a camisa do Inter, pensou: tem Grenal. Ele andava tão desligado de futebol! Tão desligado e desinteressado que dizia, algumas vezes: torcer para um time era o mesmo que copular com a vara emprestada...  Mas sem nada para fazer naquela tarde de domingo, resolve dar uma espiada lá dentro. Dirige-se a um dos guichês, compra um bilhete, passa na catraca, adentra no estádio e senta-se junto à torciida colorada. Ele mal senta e é apupado; xingam-no, injuriam a mão e gritam: gremista cacohrro.. Ai ele percebe que veste uma camiseta azul. Os policiais que vigiam as torcidas, retiram-no do redemoinho vermelho e põe-no em meio ao aglomerado azul. Em seguida o jogo começa, mas João Caetano adormece.

Quando João Caetano acorda; vê os jogadores dos dois times sentados no meio do campo, ouvindo instruções dos seus treinadores. Pergunta o que está acontecendo ao companheiro do lado. O cara diz que o jogo terminou empatado no tempo normal e também na prorrogção, foi zero a zero, e, agora o campenato vai ser decidido em cobranças de pênaltis. O juiz escolhe uma das goleiras para as cobranças dos tais pênaltis e ordena o início dos trabalhos. Os boleiros do Grêmio chutaram a gol. Os caras do inter chutaram a gol. A primeira série ficou empatada em 5x5; a 2ª série 5x5; a 3ª série 5x5; a 11ª série 5x5; a 23ª série 4x4; a 91ª 1x1. As cobranças terminavam sempre empatadas. Os jogadores estavam tão cansados que já não conseguiam parar de pé. À meia-noite, o juiz cai desmaiado. O juiz reserva ordena que os torcedores irão decidir o título, eles cobrarão os tiros livres para os seus clubes. Porém, surge um problema, os torcedores não possuem fardamento, nem chuteiras, nem meias adequadas. O impasse foi solucionado pelo Presidente da Federação Gaucha de Futebol, que autorizou os torcedores a cobrarem os pênaltis de qualquer jeito. Para bater na bola valia tênis, sapatos, tamancos, alpargatas, coturnos, galochas, pé engessado, enfim, valia tudo. Era zero hora e trinta e cinco minutos quando os torcedores iniciaram as séries. Às cinco horas da manhã o jogo  continuava empatado. O juiz reserva e os bandeirinhas haviam caído desmaiados. Na rua era uma confusão provocada pelas sirenes das ambulâncias conduzindo os torcedores para os hospitais da cidade, quase todos desmaiados devido a falta de ingestão de líquidos. Agora quem comandava a cobrança dos pênilatis era o vice-presidente da Federação e o baile prosseguia... Não querendo fazer trocadilho, àquela altura do campeonato, já não havia quase ninguém no estádio. De repente, um brigadiano cutuca no ombro de João Caetano e ordena: é a tua vez de bater na peronha. Já não havia mais bola. Vinte e cinco bolas oficiais haviam sido gastas. João Caetano ia chutar uma bola de meia. Quem estava no gol para tentar fazer a defesa era o presidente do Internacional.. João Caetano estufou o peito, enquadrou o corpo, correu para a bola, digo meia, levantou a perna e caiu desmaiado.
   

NÃO FIQUE AÍ PARADO

Eu não fui ao banquete
Eu não tenho convite
Eu não tenho história
Eu não tenho tempo,
No entanto, a vida
não exige passaporte
A porta está aberta
para quem acredita.

quinta-feira, 11 de março de 2010

MEU PONTAL



Eu sorvia o meu chimarrão
à sombra da figueira à tarde...
Eu contemplava a lagoa,
lendo os poemas de Neruda
Pensava nas lacunas do texto
de "Vinte sonetos de amor"
e transmutava-me na poeira
das areias do Pontal
e nas pedras de "Isla Negra"
e em todos os pássaros,
 em todas as flores
à volta da praia
porque era primavera
no meu coração.

São lembranças antigas
brotando das paredes 
de um tempo irreversível
de imagens, cinza e tempo.
São os componentes difusos do sonho
invadindo as defesas orgânicas,
plagiando a estrutura do texto
de "Uma canção desesperada"

terça-feira, 9 de março de 2010

DOM PAULETE, ME PERDOE

Eu sou a linha torta
do poema Reto de Fernando Pessoa
Eu sou o painel de Kafka,
o caos, a neurose, o processo.
Eu sou o Tempo Perdido de Proust,
a memória, o sonho, a lembrança.
Eu sou a Náusea de Sartre,
o Ser, o nada, a angústia.
Eu sou a dor de Nieztch,
a corda atada no abismo.
Eu sou o "Gita" do mago
Eu sou aquele que não sabe. 

segunda-feira, 8 de março de 2010

NAQUELE TEMPO

Naquele tempo
bebia a solidão quase absoluta
inerente à quietude harmônica da natureza.
De permeio, aspirava algo que quebrasse
o veio tedioso da tranquilidade;
talvez uma pedra lançada na calmaria do lago
ou a réstia de vento a debulhar o campo de trigo.

Naquelas manhãs pretéritas
banhava o corpo nas gotas suspensas,
no rosto luminoso da fonte,
navegava nos fluidos das essências sagradas,
integrado à sabedoria da unidade,
 mas quando ousei, num passe de mágica,
agir sobre a face de gaia;
nomeando, adicionando e dividindo,
me perdi nas trilhas bifurcadas do eu.

Acho, que dentre as coisas
que desesperam o homem,
talvez a mais exasperante, seja
absorver o cotidiano embebido de paz,
tanto, que cedo ou tarde,
lá vai ele, criatura inquieta,
à procura  de guerra,
e na falta de inimigos,
destrói a si mesmo.

terça-feira, 2 de março de 2010

DIA DOIS

O meu ser chora
todos os dias dois
de cada mês do ano,
pois foi num dia dois
 que o meu filho partiu.

A saudade é tanta
que as lágrimas brotam
das vertentes da alma
até transbordarem
no rio da lembrança.

Há muitos anos
eu lia Ernesto Sábato,
numa passagem do livro
"Sobre Heróis e Tumbas"
onde ele descrevia a dor
de um pai que perdera o filho,
parado em um parque de Montevidéu.

Hoje revejo mentalmente
aquele homem triste
e percebo a real diferença
entre ficção e realidade
apesar de às vezes,
ambas se confundirem;
entretanto, a dor é terrivel
na carne de quem a sente.

Eu sei que essa saudade
vai me acompanhar
ao longo dos dias
e o futuro a Deus pertence,
o nosso destino está traçado,
mas dele nada sabemos.
O modelo dos homem
 falou um dia:
"até os teus cabelos estão contados"
e "há um tempo para tudo"
mas só o pai sabe o dia e a hora.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O MEDO

Da minha janela,
neste tarde de quase outono,
descortino a rua.
Vejo os passantes
em sua diversidade:
multidão de rostos díspares,
complexidade de sentimentos
quase esmagados
pela noite que se aproxima.

Sinto que o meu medo
se fundo no medo
dos meus semelhantes,
percebo que os meus gestos
misturam-se aos movimentos dos homens,
e, que o meu espanto
junta-se ao assombro dos fracos.

Leio o inconformismo nos rostos cansados,
como se o peso do fardo
fosse algo demasiado às forças individuais
Parecemos itinerantes de um percurso surrealista
imposto à revelia
e, estúpidos, esperamos a barca de Caronte.