terça-feira, 30 de novembro de 2010

GUERRA CIVIL

Eu era criança
e fiquei chocado
quando soube
que gerra civil
significava matança
entre irmaos
de um mesmo país.

Foi quando me disseram:
menino, fique tranquilo;
jamais vai acontecer
guerra civil aqui
por que a nossa gente
é ordeira, pacífica e cristã.

Mas em Mil Novecentos e Sessenta e Um
durante a capanha da Legalidade,
fiquei sobressaltado
quando as forças reacionárias
tentaram impedir a posse legal
de João Goulart à presidência da república,
mas para o bem da nação, naquele momento,
o evento teve um final feliz.

Em Mil Novecentos e Sessenta e Quatro,
senti muito medo,
ante a possibilidade de guerra,
porém o presidente foi embora,
evitou o choque
e não houve derramamento de sangue.

Em seguida veio a noite dos generais,
as torturas cruéis e vidas ceifadas
pela guerra civil silenciosa;
a imprensa amordaçada não podia falar
dos crimes daqui
Os censores nas redações dos jornais
controlavam quase tudo
e permitiam apenas, as noticias das guerras lá de fora...

O tempo passou e os generais retornaram aos quartéis
e a gente pensou que as asas da liberdade
voltariam para ficar, para sempre,
sobre as nossas cabeças,
mas parafraseando a letra do samba do Paulinho da Viola,
liberdade, foi um sonho que passou em nossas vidas...

Se nos anos sessenta e setenta
o sagrado direito de ir e vir
nos foi confiscado, muitas vezes,
pelas arráias miúdas do sistema,
hoje, trancados em nossas casas
somos prisioneiros do medo.
A via pública foi tomada
por indivíduos intinerantes
à margem da lei.
Estamos sob à guerra civil.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Eu me lembro das campanhas de Natal
de várias décadas passadas
quando a tv ainda não possuia
o poder de penetração de agora
As propagandas eram lançadas no rádio,
maior veículo de comunicação daquela época.

Apesar do apelo comercial
a coisa era conduzida,
aos olhos de hoje,
de forma meio inocente.
Se a gente voltasse a ouvir
os jingles daquele tempo, pensaríamos:
como éramos ingênuos!

Como dizem agora;
a fila andou
e quem parou no tempo,
perdeu o bonde da história.
Tudo se transformou,
entretanto, algumas evoluções
são apenas aparentes.
Se houve um ganho, "entre aspas",
na qualidade de vida,
perdemos na condição moral.

Na primeira década do terceiro milênio,
às portas de mais um Natal,
somos torpedeados
pelo bombardeio mercantilista
através da tv, da internet
e de outros canais poluidos,
mas nosso cérebro, dependente
do consumismo desenfreado,
perdeu o controle da situação,
e o envangelho da moda prega
que a felicidade está ao alcance
de qualquer cartão de crédito.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

UM CIGARRO DE HORA EM HORA

Naquela época
em que eu era
dependente do tabaco
sentia a engrenagem do tempo
mover-se de forma
seccionada.
Os dias e as noites
eram cortados em fatias
específicas, segmentadas;
esses períodos estanques
eram delimitados
pelos cigarros consumidos.
O gosto acre do fumo
trazia-me preso
ao sistema preconcebido
por mim mesmo, dependente
de uma idéia introjetada
a qual me fizera
escravo de um paradigma.

Agora o tempo
voltou a ser um bloco compactado
sem limites, divisões ou sobressaltos,
com pouca coisa definida ou automatizada
e as operações necessárias
à manutenção anímica
são administradas aleatoriamente
em consonância com o estado de espírito.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

RIO OU CHORO?

Passei a minha juventude
ouvindo hinos patrióticos;
músicas encomendadas pelo governo
com o fito de gerar no ouvinte
aplausos para o "status quo"
daquele momento.

Depois o sistema ruiu,
vieram outros tempos,
a fila andou
e o avanço em diversas áreas
nas últimas décadas
são feitos incontestáveis.

Os fatos estão ai;
a propaganda oficial
nos lembra a toda a hora:
o governo tem quase cem por cento
de aprovação popular
e o povo readquiriu
a alegria verde-amarela.

Eu que já fui cético
em relação ao nosso progresso,
hoje dou mão à palmatória.

Agora, há pouco saiu
o relatório do IDH -
Índice de Desenvolvimento Humano-
Eu fiquei deslumbrado com o nosso avanço.
Pasmem, senhoras e senhores,
ficamos no 76º lugar no cômputo geral
e na America Latina ficamos atrás apenas
da Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Barbados,
Panamá, Bahamas, Trinindad e Tobato...
Olha gente, não estou rindo
porque o assunto é sério...
Dá vontade de bater no peito
e gritar para o mundo ouvir:
Tenho orgulho de ser brasileiro!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O FIM ANTES DO FIM

O homem antigo vivia
uma vida maior
numa curta trajetória de tempo.
O homem atual vive menos
numa vida de longo tempo.

O homem antigo desconhecia
o significado do verbo viver,
no entanto vivia a hora cheia.

O homem moderno atropelou o tempo
e logo pediu mais tempo,
porque o tempo que ele mal administrava
parecia-lhe tão pouco.

O homem pós-moderno
tem pressa
sôfrego, abomina o jargão
"dar tempo ao tempo"
impaciente, pula o "meio"
ansioso, busca logo o "fim".

O homem de agora
menospreza o meio termo.
O homem do tempo novo
vive com o pensamento fixo
na fruição da substância orgástica.

O nosso projeto de vida
está centrado no fim:
o fim da tarde,
o fim da semana,
o fim do mês,
o fim do ano,
o fim da novela,
o epílogo do livro,
o ápice na cama...
mas apesar de tudo,
tememos o "fim do fim"
tanto que se tivéssemos poder de barganha,
diante da nossa hora derradeira,
negociaríamos com o juíz do tempo
e pediríamos um tempo complementar...
uma prorrogação de tempo...
um bônus...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

HOJE EU LEMBREI DE FERNANDO PESSOA

Depois de muito tempo
trancado no meu quarto,
procurando nos compêndios
a chave de elucidação
dos enigmas que inquietam
a nós, pobres humanos,
lancei os olhos para a rua
através de uma fresta na parede
e avistei um jumento,
abstraido do mundo,
pastando com naturalidade.

Naquele instante
fiquei pensando:
nas árvores que crescem,
alimentam outros seres,
purificam o ar do planeta
e não perguntam por quê?
Nos pássaros que embelezam a natureza,
alegram o espírito humano
e não possuem consciêcia disso.
Nos regatos que desaguam nos rios
e estes desembocam nos mares;
trabalho que fazem
desde o começo das eras
à margem dos sistemas filosóficos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

CADÊ O POEMA?

Já não sei
dos cigarros não fumados
- sou ex-fumante -,
dos cafés bebidos
e do papel amarrotado
à espera do poema
oculto sob as brumas do ser.

Sou pescador
de caniço entre os dedos
procurando fisgar os versos
que possam cruzar
ao alcance da minha intuição.

Na pesca temporã
não encontro
meus peixes favoritos;
dourados, por exemplo.
Ah, essa minha falta de humildade
que menospreza as arraias miúdas.
Às vezes, remungo: o rio não está prá peixe!

Mas é necessário ser paciente
e compreender a entressafra,
aceitar o repouso da terra
e perceber o momento expontâneo
em que o grão rasga o solo:
o poema no tempo exato.

sábado, 6 de novembro de 2010

A FEIRA DO LIVRO

Sabe, aqueles dias
em que a gente desperta programado
para realizar algo preconcebido
entretanto a cabeça não lembra da tarefa
mas o espírito fica enviando
mensagens codificadas para o cérebro.

Isso aconteceu comigo
na sexta-feira da semana passada
quando acordei com uma sensação estranha
e não demorou muito
veio-me a impressão de ouvir
uma vozinha no fundo do meu ouvido:
Vê se não esquece do compromisso!

Horas mais tarde,
sentado à mesa de trabaho,
distraído entre carimbos e papéis,
fiquei com o sentimento de ter escutado
no meio da conversa cruzada
entre as mesas dos colegas, aquele lembrete:
Não esquece do compromisso.

Às duas horas da tarde
senti fome e pensei em almoçar,
mas a voz voltou:
esquece um pouco do estômago,
o pão do espírito é mais importante!

Atordoado, sai andando pela rua
como se estivesse num estado alterado de consciência
ou feito um autômato bêbado,
assim cheguei à Praça de Alfândega
no início do discurso de abertura
da Quinquagésima Sexta Feira
do Livro de Porto Alegre.

Após a abertura da festa
fiquei circulando pelos stands,
procurando algum amigo
e lendo as capas dos livros.

Depois de algumas horas
minhas pernas pediram descanso
então, adormeci sentando num banco
mas no meio da sonolência
foi rodado um filme dentro de mim
e na fita em preto e branco
vi-me visitando esta feira no passado
e recebendo autógrafos dos meus ídolos,
de alguns deles que já partiram...
Senti novamente o êxtase
da primeira vez em que entrei
aqui no templo dos livros.
Revivi o clima daquele tempo
quando os estands eram chamados de barracas
e a cidade ainda tinha aquele ar de provincia...
Naquela época, eu comprava algum livro
começava a leitura aqui mesmo, nestes bancos
e as flores dos jacarandás
caiam sobre as páginas abertas;
depois, algumas delas secavam entre as folhas
e hoje essas flores desidratadas
são lembranças, saudades, relíquias...

De repente despertei do sono
com o ruido da sineta do Xerife Julio La Porta
Estava na hora do fechamento da Feira
naquela noite,
mas a Festa dos livros estava apenas começando...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

SOCIEDADE BRAZUCA

Sabemos que as ordens iniciáticas existem
há muito tempo,
portanto, quase ninguém de conhecimento mediano
ignora a existência das sociedades secretas,
entre elas, a Maçonaria, Os Templarios, Os Illuminati...
Mas, o que muita gente sabe e não divulga
é a existência da sociedade secreta "Brazuca"
com sede no Distrito Federal
e cuja eficiência é testada
após as eleições presidenciais
com o preenchimento dos cargos
de primeiro, segundo e terceiro escalões...
E tais eventos nem sempre ocorrem
de maneira harmônica
como converia a clube fechado,
onde, teoricamente, seria norma
o rigor do Estatuto...
Mas como temos dito tantas vezes:
A perfeição não é deste mundo,
e este país... Ah, este país...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

COW PARADE

A Cow Parade,
essa arte criada pelo suiço Pascal Knapp,
que depois percorreria o mundo,
chegou aqui.

Durante o mês de outubro
os objetos estiveram expostos
em diversos lugares de Porto Alegre,
arejando a cidade.

O evento causou
belos momentos de euforia,
as crianças, então, adoraram as vaquinhas
como se elas fossem reais.
Teve uma menina que chorou
porque não conseguiu tirar leite...
Coitada dessa criança, que nunca
viu uma vaca de verdade,
assim, tete-a-tete.