quinta-feira, 29 de novembro de 2012

XANGRILÁ

Estou cansado de conviver
com a violência urbana.
Todo o dia a cena se repete:
assalto, roubo, sequestro, morte...

Nem a participação na grade de consumo
de uma fatia social desindexada
foi capaz de reduzir a taxa de delitos.
Estamos a mercê do destino.

Às vezes adormeço pensando
nas coisas que ficaram perdidas lá atrás,
tempo em que não tínhamos medo
de andar pelas ruas da cidade.

Outro dia estive pensando
em procurar um  paraíso perdido qualquer,
entretanto, a razão me informa
que a cidade ideal foi riscada do mapa.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

FRUGAL

Meus versos são simples como o ato de viver
Minhas atitudes são comedidas como os gestos do eremita
Minhas ideias estão armazenadas num banco de dados antigo
Ideias, para que as quero, se elas por si mesmas
não irão mudar o mundo.

Minhas palavras são escassas como a água no deserto.
Não me culpo porque em tempo percebi,
que o excesso de palavras do falante
denunciam a fuga do vazio interior
e o medo do indivíduo diante do mundo.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

ORGULHO E VAIDADE

Tanta gente nesta jornada
tocando a vida na ilusão
de que a vaidade é uma virtude
e que o orgulho é o premio
dos vencedores das batalhas laicas...

Tanta gente dizendo
do orgulho que estão sentindo
pelo sucesso de suas carreiras,
pela vitória dos seus filhos...

Tanta gente batendo no peito,
com os olhos faiscando orgulho,
gritando ao mundo que aceitaram
Jesus no coração...

Tanta gente passando horas
na frente dos espelhos, alisando o ego...
Tanta gente já não cabendo em si
 sob efeito overdósico da vaidade
ao vestir um terno novo,
ao comprar o vestido de grife,
ao sentar à direção do carro importado...

Eu gostaria tanto que a sensatêz
colocasse alegria onde há orgulho
e satisfação onde existe vaidade
para que a felicidade estivesse mais presente...



terça-feira, 13 de novembro de 2012

OUTRA VEZ O FIM

        De tempos em tempos, surge a ideia de que o mundo vai acabar numa data determinada. Parece que, no início do último século do primeiro milênio, começou a boataria de fim de mundo para o ano 1000. No segundo milênio, foram previstos vários fins. Eu, que nasci no meio do século passado, cresci ouvindo dizer que o mundo acabaria na virada do ano 2000...
       O poema do post de hoje, eu o escrevi lá por 1990 e pus na gaveta. Pretendia deixá-lo guardado, mas como agora estão falando novamente, que o mundo vai acabar daqui a alguns dias, ou seja, em dezembro de 2012, então resolvi postá-lo, só por brincadeira, portanto, não o levem muito a sério...



O mundo acaba em dois mil,
quem sabe em dois mil e um,
 talvez em dois mil e treze.

Poderá acabar amanhã
ou depois de amanhã
e muitas outras vezes.

Um gaiato diria que:
é o início dos tempos findos
é o chifre torto da besta
é a sombra do apocalipse
é a música do Rauzito
é o ponto final da reta.

Mundos acabam,
mundos nascem,
entretanto, ignoramos
os tempos de tais eventos,
porque Deus não quer
nos pregar sustos.
Sabemos apenas que
passamos e renascemos
e repassamos, seguindo
a marcha da eternidade...

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

REBELDE

Durante boa parte da minha adolescência,
eu pertenci aquela turma
que ao primeiro dia da semana
esperava sofregamente pela sexta-feira
e tudo que contrariasse esse sentimento
causava-me indisposição e cansaço.

Naquele tempo, eu embarquei
na ilusão de muita gente boa,
que via no trabalho uma maldição divina.
Eu pensava com os meus botões
que o paraíso na terra pertencia
aos eternos desocupados.

Mas um dia o vaticínio de meu velho pôs-me contra a parede:
fora do trabalho responsável não há saída.
Por ironia do destino ou para minha sorte,
por aqueles dias caiu-me às mãos
o "Candido" de Voltaire.
Confesso que ao fim das peripécias do Mestre Panglós
tive de concordar com o meu pai:
O trabalho é o  fator dignificante de uma vida.
Então era tempo de parar de brincar de rebelde.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

AINDA O LIVRO

Na semana passada comemorou-se
 o dia nacional do livro.
Fiquei por dias pensando no evento;
de um pensamento a outro
girando sobre o tema,
aterrissei na  inesquecível década de sessenta,
época em que eu visitava regularmente
os sebos do centro da cidade,
principalmente aquele da Rua Riachuelo
ao lado da Biblioteca Pública,
a livraria Martins, o livreiro,
propriedade do seu Manoel.
Acho que ela foi uma das pioneiras
no ramo de usados aqui em Porto Alegre.
Ainda sinto o cheiro do tempo
emanando de um mundo novo
de dentro daqueles velhos livros,
impregnando aquelas tardes mágicas.

sábado, 3 de novembro de 2012

EU VIVERIA MAIS FELIZ

Eu viveria mais feliz:
se o forte amparasse o fraco;
se o homem protegesse a mulher;
se o sábio não pisasse no ignorante;
se os fundamentalistas entendessem
que todas as religiões são sagradas -
que todo homem é sagrado,
porque dentro dele habita um espírito, filho de Deus -;
se os países imperialistas não metessem a colher
na sopa dos povos periféricos.

Eu tenho esperanças
de que num futuro próximo
a verdade virá à tona
e o homem será um ser compreensivo,
 e suas ações estarão alicerçadas
na cartilha da solidariedade...