quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

MINISSAIA

Acho que quando Mary Quant
lançou a moda da minissaia,
nos gloriosos anos sessenta,
não imaginava que sua invenção
atravessaria o tempo.

Passado o agito inicial,
disseram os incrédulos:
é mais uma modinha passageira,
como foi a saia plissada,
a blusa de ballon
e as meias americanas.

As pioneiras usuárias da minissaia
sofreram em várias partes do mundo
as agruras da incompreensão e do  preconceito
porque as mentes não estavam preparadas
para assimilar com naturalidade
a exposição da coxa feminina.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

PAPAI NOEL, CHEGA DE VERMELHO!

Já estou cansado deste Papai Noel
trajado de uniforme vermelho.
Não bastasse o MacDonalds
ter invadido a periferia do mundo
ainda temos de aturar
Papai Noel vestido de Coca Cola.

Para fins de exercício de imaginação,
pintemos um Papai Noel de roupa cor de abacate,
um convite ao politicamente correto,
o resgate ecológico de uma época
de natureza verde, viva, pujante.


Meus amigos e amigas blogeiros, deixo aqui o meu abraço a todos vocês!
Desejo-lhes um lindo Natal e um maravilhoso Ano Novo!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MINHA AVÓ E O FIM DO MUNDO

Nesses dias de contagem regressiva,
antecedentes ao fim do mundo,
tenho pensado em minha avó.

No ano de sessenta e dois
do século passado
- disseram que o mundo acabaria,
no dia cinco de fevereiro,
em consequência do alinhamento dos planetas -,
minha avó patrocinou uma festa memorável.

Eu era criança naquele tempo
e ainda recordo dos pormenores;
não do fim do mundo,
que acaba para quem parte daqui,
mas dos eflúvios da festa.

Minha avó era matriarca
de uma prole numerosa,
quase duas dezenas de filhos,
que se multiplicou com volúpia,
proporcionando-me uma centena de primos.

Então, voltando ao fim que não aconteceu,
minha avó preparou uma janta
para os familiares e amigos
na noite anterior ao dia fatídico.

A festa foi linda,
o mundo continua ai.
Minha avó estava radiante.
Acho que no fundo,
o espírito que habitava seu corpo sabia,
que mais um ciclo se completaria
alguns meses depois, naquele mesmo ano.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

UM DIA DE DOMINGO

Aquele senhor aposentado,
vivendo dentro de casa,
há muito tempo não ia lá fora.

Mas ontem à tarde,
deu-lhe na veneta,
fazer algo diferente.

Lembrou-se das coisas da rua,
decidiu-se por um passeio,
queria ver gente de perto.

O personagem tomou um táxi,
desceu numa praça histórica,
mas o local estava deserto.

Nosso herói pensou consigo:
é muito cedo e adormeceu
sentado num banco de pedra.

Despertou às três da tarde,
olhou para todos os lados,
mas a praça estava às moscas.

O homem não se deu por vencido,
buscou outras praças da cidade,
mas todas estavam vazias.

Por fim, nosso amigo concluiu
que havia se equivocado.
Deveria ser um dia útil de semana
com todo mundo no trabalho e no estudo.

O velhinho assustou-se à porta de casa
quando alguém confirmou que era domingo.
- Mas cadê as pessoas que eu não as vejo em nenhum lugar?
- Bom, as pessoas são as pessoas (ouvir mutantes); elas aderiram ao chamado:
"A gente se encontra na frente da telinha!"

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

SOMBRAS

Nenhuma lasca de sonho
vertida no olho da noite.
Nenhuma nesga de dor
turvando o azul da tarde.

Nem gula. Nem sede. Nem sangue.
Nem guerras. Nem tricas. Só o poema;
a pasmaceira dos versos dormentes.
O lado lúdico da vida.
Eu lia Mario Quintana.

O vento subia a saia
da moça distraída à rua.
O olhar traia o desejo
do corpo da mulher no outono.
O pensamento moldava
as formas da ninfa nua.
Eu lia Jorge Luis Borges.

Eu tirava o pó dos livros na estante.
A vida passava lá fora.
A brisa lambia os corpos na tarde.
Eu lia Fernando Pessoa.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

VITAMINAS, ANALGÉSICOS, BARBITÚRICOS

Hoje conclui que estou doente,
que as pessoas estão doentes,
que o mundo está doente.

Meu vizinho está doente,
o quitandeiro está doente,
o patrão está doente,
os empregados estão doentes,
o professor está doente,
o médico está doente.

Parece que as pessoas estão viciadas em medicamentos;
talvez pela facilidade da obtenção da droga,
os remédios são ingeridos
para dormir
para acordar
para lembrar
para esquecer
para sorrir
para amar..

Na era da padronização farmacológica
as pessoas ficaram dependentes
da ingestão medicamentosa
e eu que passo ao Norte dessa conduta
sou visto como doente
porque não sigo a norma.