terça-feira, 29 de abril de 2014

LEMBRANÇAS POÉTICAS

Remexendo outro dia
no bau de recuerdos,
encontrei algumas cartas
dos meus dias juvenis.
Marcas de uma época
anterior à aldeia global,
quando o serviço do correio
e o telefone de disco
eram pontes entre as criaturas.
Reencontrei-me com alguns vocábulos
perdidos no esconderijo da memória
- gíria amiga dos anos sessenta -,
mas latentes na lembrança do poeta,
que me reconectaram ao túnel do tempo.

domingo, 27 de abril de 2014

SERÁ QUE EU ESTOU ENLOUQUECENDO?

A leitura jornalística dos últimos anos
tem feito eu lembrar da imortal Elis
parodiando uma música que ela cantava.
Meus queridos amigos hão de perguntar,
qual o nexo entre a notícia e a partitura?
É que o nosso cérebro possui o hábito,
lógico ou não, de associar ideias;
no caso aqui exposto, palavra.
e a palavra, combustível da escrita,
leva o poeta a rabiscar no papel,
muitas vezes, elementos significantes
para ele próprio, outras vezes,
para o círculo de afinidades.
Mas, enfim, vamos ao fato:
por mais disparatado que pareça,
fico imaginando a Pimentinha cantar assim:
uma maracutaia pra lá, outra maracutaia pra cá;
duas maracutaias pra lá, duas maracutaias pra cá;
mil maracutaias pra lá, mil maracutaias pra cá,
milhares de maracutaias ....
maracutaias que não acabam mais, meu Deus!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

CHIMARRÃO

Hoje, vinte e quatro de abril
é o dia do chimarrão,
nossa doce bebida amarga.

Legado dos povos indígenas,
oriundos do extremo sul da America,
presente no nosso cotidiano.

O mate é sorvido  na Argentina, no Uruguai,
Paraguai, e em outras querências...,
mas aqui no Rio Grande virou paixão.

Do porongo rústico à cuia,
do canudo de taquara à bomba,
o chimarrão não parou no tempo.

Para comemorar (bebemorar) a data
nada melhor que uma mateada
no estilo roda de chimarrão.


terça-feira, 22 de abril de 2014

INFORMALIDADE

Lá pelo meio do século passado
os vendedores ambulantes
anunciavam na Rua da Praia:
vendo Óleo de Peixe Boi,
Extrato do Ipê da Amazônia,
pomada milagrosa tira dor,
bilhete da Loteria estadual,
assinatura da Revista Cruzeiro
e manual de como enriquecer sem fazer força...
Naquela época, na praça XV,
em torno do Mercado Público,
havia o tradicional Lambe-lambe,
o retrato em preto e branco,
três por quatro, tirado na hora
- fotos para o primeiro emprego...
As novas tecnologias varreram
hábitos e costumes antigos,
mas os ambulantes ainda estão
no Centro Histórico e agora apregoam
outros produtos:
temos  o comprimido azul importado do Paraguai,
vendemos óculos de grau por cinquenta reais,
fornecemos recibos de contra cheques
assinalados no valor que o freguês desejar
e atestados médicos de 14 dias...

sábado, 19 de abril de 2014

A SOLIDÃO GLOBAL

A aldeia global
produziu o indivíduo moderno ,
um elemento numérico
da engrenagem digital

A aldeia global
democratizou as relações
do homem sem rosto
através da rede virtual

A aldeia global
eliminou as fronteiras,
mas enjaulou a criatura
na solidão existencial

terça-feira, 15 de abril de 2014

PARA E OLHE

Li outro dia, em algum lugar,
o depoimento de uma menina
dizendo que vivia a correr
o dia inteiro, todos os dias,
mas nunca lhe sobrava tempo
nem mesmo um tempinho qualquer
de olhar para o próprio tempo...

Por vezes, quase desconfiava,
que corria sem um objetivo sustentável...
Que praticamente nada no mundo
mudaria para o bem ou para o mal
em virtude de suas correrias esbaforidas,
porém, justificava-se: é necessário correr,
a vida é muito curta...

Mas um dia deixou cair a guarda
e por breves momentos de distração
viu, emocionada,  uma borboleta diferente
de todas as borboletas
que já vira em sua vida.
Na verdade era uma borboleta
igual a tantas outras borboletas,
mas uma novidade para ela,
que não tinha tempo de ver as coisas,
que existem para ser vistas...




quinta-feira, 10 de abril de 2014

O DEDO DO HOMEM

Eu tinha uns dez anos
quando o pároco
pôs-me a correr
esbaforido da capela,
no dia em que adicionou
as labaredas do inferno
ao sermão dominical.

Anos após o susto,
frequentei templos
de várias seitas,
mas a figura do demo
permanecia inserida
nas prédicas diárias.

Então, por toda a parte
exala o ranço dogmático
da política imperialista
que tem distorcido
a pureza do cristianismo.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O PARAÍSO PODE ESTAR AQUI

Quando o arco-íris rasgava as nuvens,
meu avô, em estado de graça, gritava;
menino, não perca tempo, venha ver:
os anjos estão espiando a gente!
Eu, extasiado, balbuciava perguntando:
- Vovô, os anjos não vivem no paraíso?
- guri, os anjos estarão onde o nosso coração estiver!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

OUTONO, DE LEVE.

A folhinha do calendário
conduziu o verão
para fora do mapa,
mas a temperatura
permanece elevada.
Veio o mês de abril
e tudo continua igual.
Parece que o outono
anda preferindo
o turno da noite
por que depois que o sol
cruza o paralelo trinta e oito
o clima tem ficado,
por algumas horas,
mais ameno por aqui.