sábado, 30 de julho de 2016

FELIZ ANIVERSÁRIO, MARIO QUINTANA!

O anjo de asas ocultas
 partiu desta em 1994
e está fazendo hoje cento
e dez anos
Mas a presença do poeta
para nós que o amávamos
ainda é muito nítida
Mario tão identificado
com as ruas centrais
desta cidade,
deve estar contrafeito
com a violência
que persegue
seus passos leves
pela ruazinha escura
onde até o vento
com medo da turba
já não dorme
na calçada...

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A LUA

A Lua, quando jovem, vivia encantada
com a veneração devotada pelos casais,
enamorados, contemplando sua luz...
Mas até a  felicidade neste mundo
tem suas crises, seus altos e baixos...
e a Lua despida de gente e de tudo,
e distante   de   um ombro   amigo
entrava em depressão profunda
à medida que ninguém a ouvia...
Mas, de repente, com seus botões:
Vingarei-me de vocês, humanos,
passarei  por metamorfoses,
murchando, escondendo-me
 reaparecendo em fatias,
mostrando-me menos,
por inteira...
e se não gostarem,
se mudem...





segunda-feira, 25 de julho de 2016

SABEMOS QUASE NADA

O poeta falou que os sonhos não envelhecem
e a  eterna juventude um estado de espírito,
designar alguém de velho pode ser exagero
ainda que as aparências sejam concludentes.
Quando alguém te chamar de jurássico
diga que velho, com certeza, é o mundo
e este não se cansa de trazer novidades.
A nossa idade pode ser apenas um detalhe,
uma etiqueta pregada na parede do tempo
ou um carimbo discriminante ao portador;
uma letra de câmbio olvidada pelo pregão...
Falar de idade, tempo, destino, existências
ainda mexe conosco porque desconhecemos
os mecanismos reguladores do sistema;
 matemáticos, racionais, eternos, perfeitos,
pois nada no mundo acontece por acaso.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

PREFERIA O MEDO ESTÉTICO

Li um livro nos anos setenta,
"A Cara Engraçada do Medo"
de um repórter-jornalista,
Murilo Carvalho.
Um bom livro, mas o medo
não era assim tão engraçado.
Era o medo rural. O medo
dos poucos afortunados.
Para nós que líamos, de longe
(e egoístas que somos),
era o medo dos outros,
era o medo fictício.
Era o medo da chuva,
dizia  Raul...
Até dá um pontinha de saudade
do velho medo estético,
porque hoje o medo é real
e está nas nossas entranhas...


quarta-feira, 20 de julho de 2016

REPETIMOS MILTON: PAI AFASTA ESTE CÁLICE!

O planeta Terra passa  por momentos  difíceis
por conta exclusiva  da  deformação  humana
O Ser afastou-se sobremaneira da boa conduta
e acabou espalhando  o terror por toda a parte.

Antigamente os trevosos agiam por escala
nas regiões mais periféricas dos continentes,
mas,  hoje,  ousados,  kamikases,  suicidas,
sugam o sangue dos corações nas metrópoles.

Ninguém desce aqui compromissado com o mal
mas alguns espíritos se afastam tanto do caminho
que acabam perdendo o senso de qualquer medida
e se transformam em seres perversos e sanguinários

segunda-feira, 18 de julho de 2016

POR QUE NÃO CAI NEVE AQUI?

Deixo no ar a pergunta
que meus filhos fizeram
lá atrás, quando pequenos.
Por que não cai neve
aqui em Porto Alegre?
Indagação semelhante
eu lembro que fiz
bem antigamente.
Por que cai neve somente
na região da Serra?
Pois outro dia ouvi
de uma boa senhora,
religiosa,  fanática:
quando veio à tona
o tema do inverno:
não somos contemplados
pela pelo filetes brancos
porque eles não estão
na agenda de Deus!

quinta-feira, 14 de julho de 2016

LEMBRANDO MARCEL PROUST

Quando passo pela Rua da Praia,
nessas nossas tardes chuvosas,
pela frente do prédio onde ficava
a saudosa Livraria do Globo,
ainda sinto vontade de subir
direto ao segundo andar,
sentar-me à mesa de leitura
e saborear, sem pressa,
as páginas de Proust
com uma chícara de chá,
mastigando uma madeleine...

terça-feira, 12 de julho de 2016

ESSAS LETRINHAS...

Eu tricotava um poema
 durante a madrugada
quando o sono debandou
feito um pássaro caprichoso
na direção da Cochinchina
deixando-me a ver navios,
digo os riscos aleatórios
na folha branca de celulose,
mas, de repente o alfabeto
ficou compactado,
insubmisso,
tipo um novelo de letras
girando à minha volta;
tão perto dos olhos,
tão longe das mãos...
Pensava num soneto,
num quarteto,
num terceto,
num verso livre;
em qualquer coisa
simples, banal...
mas as letras
continuavam
enoveladas...


sábado, 9 de julho de 2016

AO MESTRE COM CARINHO - II

Foi numa Feira do Livro,
dos meus verdes anos,
a vez em que estive
na frente dele.
A um passo do mestre
faltou-me coragem
para dirigir-lhe a palavra.
As perguntas elaboradas
para aquele momento
ficaram trancadas...
Com a boca seca,
mudo e trêmulo,
estiquei a mão
que segurava
"A Rua dos Cataventos",
balbuciando:
por favor, um autógrafo.
Então, o poeta abriu
aquele sorriso tímido
e disse: menino, hoje
não o meu dia de autógrafo,
mas os pedidos dos meus leitores
são ordens para mim!


quinta-feira, 7 de julho de 2016

AO MESTRE COM CARINHO

Tive um sobressalto
na   primeira     vez
em que vi o Mário
andando pela rua
porque até então
os poetas viviam
em   um    altar,
sobretudo
Quintana,
que era mais
que um poeta,
mas a própria poesia.


segunda-feira, 4 de julho de 2016

NÃO SABEMOS NADA

Primeira metade do ano já era
A segunda parcela é espectativa
ignoramos os eventos futuros
não temos  bolas de cristais à mão
e mesmo  que as tivéssemos talvez
nos fossem de pouca valia
porque não  temos permissão
para ver nossos passos à frente
daquilo que dizemos "o agora"
tal como ainda nos é negado
um passeio por outros planetas
nesta atual existência...