A minha Lista de blogues

terça-feira, 12 de julho de 2016

ESSAS LETRINHAS...

Eu tricotava um poema
 durante a madrugada
quando o sono debandou
feito um pássaro caprichoso
na direção da Cochinchina
deixando-me a ver navios,
digo os riscos aleatórios
na folha branca de celulose,
mas, de repente o alfabeto
ficou compactado,
insubmisso,
tipo um novelo de letras
girando à minha volta;
tão perto dos olhos,
tão longe das mãos...
Pensava num soneto,
num quarteto,
num terceto,
num verso livre;
em qualquer coisa
simples, banal...
mas as letras
continuavam
enoveladas...


sábado, 9 de julho de 2016

AO MESTRE COM CARINHO - II

Foi numa Feira do Livro,
dos meus verdes anos,
a vez em que estive
na frente dele.
A um passo do mestre
faltou-me coragem
para dirigir-lhe a palavra.
As perguntas elaboradas
para aquele momento
ficaram trancadas...
Com a boca seca,
mudo e trêmulo,
estiquei a mão
que segurava
"A Rua dos Cataventos",
balbuciando:
por favor, um autógrafo.
Então, o poeta abriu
aquele sorriso tímido
e disse: menino, hoje
não o meu dia de autógrafo,
mas os pedidos dos meus leitores
são ordens para mim!


quinta-feira, 7 de julho de 2016

AO MESTRE COM CARINHO

Tive um sobressalto
na   primeira     vez
em que vi o Mário
andando pela rua
porque até então
os poetas viviam
em   um    altar,
sobretudo
Quintana,
que era mais
que um poeta,
mas a própria poesia.


segunda-feira, 4 de julho de 2016

NÃO SABEMOS NADA

Primeira metade do ano já era
A segunda parcela é espectativa
ignoramos os eventos futuros
não temos  bolas de cristais à mão
e mesmo  que as tivéssemos talvez
nos fossem de pouca valia
porque não  temos permissão
para ver nossos passos à frente
daquilo que dizemos "o agora"
tal como ainda nos é negado
um passeio por outros planetas
nesta atual existência...

quarta-feira, 29 de junho de 2016

POR ANDA VOCÊ

O poeta disse que
havia uma pedra
no meio do caminho,
mas prosseguimos
de mãos dadas
e cantemos
o tempo presente,
mas a festa acabou
e o riso não veio
e agora Josè?
Mas o poeta
contornou as pedras
aparou as arestas
e quando escureceu
acendeu uma vela
e quando fecharam a rua
foi pelo atalho...
Mas a lide é dura,
existência é curta,
e o tempo não pára
e o poeta fez-se de morto...
Mas você não morre,
você é duro,
se perpetua na nossa memória
Você ausente/presente
ri dos nossos versos
zomba dos nossos medos...
Ah, poeta, tu disseste
o mundo é grande,
o mar é grande,
 o amor é grande...
e se teu nome fosse Raimundo...
Não foi necessário,
 tu tinhas a solução,
 a rima, tanta coisa
tu eras completo,
enfim, um poeta
grande, grande, grande...
Mas a pedra está
no meio do caminho.
Ela é renitente,
ela é surda,
ela é doida,
ela rouba,
ela mente,
ela corrompe...
E agora, Drummond?




es

sexta-feira, 24 de junho de 2016

PARAFRASEANDO

 Pensando naquele sucesso
do cantor Belchior,
dos anos setenta,
que dizia, no meio da música:
" Não me peça que lhe faça
uma canção como se deve,
limpa, suave, muito leve",
sou tentando à paráfrase
e digo que acho difícil
escrever uma linha arejada,
um verso suave,
um poema limpo
imune à pestilencia
que paira ao entorno
Está difícil respirar
o ar denso, poluído,
contaminado,
corrompido...
Ele dizia,
eu sou  um rapaz latino-americano,
sem dinheiro no banco.....
Poderia dizer agora,
sou um sobrevivente
de um país desmoralizado
que sucumbiu ao comando
da caterva dos larápios...


terça-feira, 21 de junho de 2016

AH, ESTE HOMEM!

Fala-se que
que a tv é uma praga
e a internet uma overdose,
o que em determinada escala
parece ser verdade.
Fala-se mal da política
a tal ponto que a contrapartida
é a louvação da anarquia
o que até é compreensível
em face da leva corrupta
que açambarcou o sistema.
Mas se pensarmos um pouquinho
chegaremos a conclusão,
aparentemente singela,
de   que   somos  nós,
a   doença   moderna
que   está  por    trás,
das coisas.....