A minha Lista de blogues

segunda-feira, 12 de março de 2018

QUEM SOMOS NÓS?

Quantas vezes posamos
de donos da verdade
sem saber o que é a verdade?
Passamos a vida
buscando o novo
em fontes caducas
sem perceber
que a novidade
é o aqui, o agora.
Gastamos  parte
desta existência
 julgando as coisas,
os seres, o mundo
com pecha de sábios,
entretanto, não sabemos
nem quem somos.

quinta-feira, 8 de março de 2018

O FIM! O FIM?


O homem moderno atropelou o tempo
e logo pediu mais tempo,
porque o tempo que ele mal administra
parece-lhe tão pouco.  


O homem moderno, apressado,
sôfrego, detesta o jargão
"dar tempo ao tempo"
impaciente, pula o "meio"
ansioso, quer logo o "fim".


O projeto de vida
do homem moderno

está centrado no:
 fim da tarde,
 fim da semana,
 fim do mês,
 fim do ano,
o epílogo do livro,
o ápice na cama...
mas apesar de tudo,
teme o "fim do fim",
tanto que se tivesse poder de barganha,
cara a cara com a hora derradeira,
negociaria com o juiz do tempo
um pedido de tempo complementar...

segunda-feira, 5 de março de 2018

POESIA, AH, A POESIA!

Meio estufetato e assustado,
ouvi esse triálogo, outro dia,
entre um adolescente e os pais,
numa livraria da cidade:

Mãê, compra o Grande Sertão Veredas pra mim!
- Prá  que tu queres este livro?
-  Leitura sugerida pela sora
- Tua professora está se intrometendo
- Ela  disse que  é uma  leitura inteligente
- Tu deves ler os jornais.
- Jornal  é diferente de livro
- Jornais tem bons colunistas, alguns são até escritores.
- Não gosto de jornais. Eles trazem as coisas que eu vejo antes na Internet.

Paê, compra este livro do Marcel Proust?
- Menino tu não  tens  idéia das coisas
que esse cara escreveu
- Como não! Já vi alguns trechos dele na Web
- Tens  certeza de que se tratava do Proust ,
sujeito massudo, rabujento, embromão?
- Claro! Li trechos do 1º volume. Estilo  bem descritivo,
mas gostei de Albertine, Germantes. Pretendo ler os 7 volumes
de "Em busca do  Tempo Perdido"
- Tempo perdido é continuar insistindo, porque
eu vou  comprar mesmo é uma enciclopédia.

Mãê, paê, não poderemos ficar  no meio-termo?
- Os dois falam ao mesmo tempo, tipo coisa combinada anteriormente:
Pode ser a coleção  Harry Potter?
- Nada disso. Caraca!
- Novamente, os dois:
 Então tu queres a coleção de dvd dos filmes  do Potter ?
- Quero o último livro do Manoel de Barros
- O quê, eu e tua mãe  nunca ouvimos falar desse cara!
- Ah, então, pode ser a coleção do Mario Quintana.
- Poesia, não! Poesia, não!
 - Por que não, se já escrevo alguns poemas?
- E os dois, ao mesmo tempo, nervosos, quase gritando:
Por que poesia amolece os miolos!

sexta-feira, 2 de março de 2018

SEI QUE NADA SEI

A sapiência douta quase me assusta:
O clero e os  formadores de opinião
querem transformar o mundo,
mas eu, um ser em evolução,
párticipe da Roda de Samsara,
ainda não sei o que é o mundo.
Também não sei quem eu sou,
não sei de onde eu venho
nem sei para onde vou
Felizes os religiosos e os políticos,
porque possuem as respostas prontas
para todas as questões existenciais
Perdoem a ignorância deste fã de Sócrates
que sabe, que nada sabe.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

PSICODÉLICO

Até semana passada,
lembrei-me muitas vezes
daquele meu amigo,
se embriagando nas águas
de Joplin, Morrison, Hendrix...
sonhando e bebendo
Baudelaire, Hesse e Pessoa,
colhendo pelo caminho
os cogumelos de Castaneda...

Ainda lembro que ele recitava
um verso recorrente na época:
"Não vim aqui para ser feliz"
Então, traduzia-me; nascera
para curtir, experimentar,sentir.
Dizia-me: viver era estar presente
no espaço fugaz e escorregadio
entre  o nascimento e  a morte.

Hoje fiquei sabendo que o rapaz
já partiu há vários anos...
Lamentei, num primeiro instante,
a brevidade daquela existência.
Absorvido o choque, em contrapartida,
fiquei meditando no meu modus vivendi
sereno, comedido,  interno...
 Por fim perguntei-me:
Será que a vida acontece do lado de fora?

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

OS GIRASSÓIS



Houve consternação na vizinhança
quando a polícia prendeu
aquele homem que morava
num casebre perto da praça.

Como fazem isso, eles disseram;
colocam um homem pacato na cadeia
enquanto milhares de malfeitores
transitam impunes pela cidade!

Que crime, aquele homem simplório
havia cometido contra a sociedade?

Simples: para a lei constituida,
ele havia invadido a propriedade pública,
porque plantara umas sementes
no canteiros em torno da praça
As sementes germinaram, cresceram
e floriram nos canteiros,
e a praça, antes tão feia,
se transformou num jardim de girassóis. 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

NÃO ERA ASSIM

Nenhuma lasca de medo
vertida no olho da noite.
Nenhuma nesga de dor
turvando o azul da tarde.

Nem gula. Nem sede. Nem sangue.
Nem guerras. Nem tricas. Só o poema;
O lado lúdico da vida.
Eu lia Mario Quintana.

A manhã parava observando
a menina distraída à rua.
O outro "eu" falava comigo,
sentados no banco da praça.
Eu lia Jorge Luis Borges.

Eu tirava o pó dos livros na estante
a vida passava lá fora
A brisa lambia os corpos na tarde
Eu lia Fernando Pessoa.

Mas isso faz muito tempo,
 ainda no século passado.
Foi antes da guerra civil
tomar o  país de assalto.