A minha Lista de blogues

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

SONHOS

Muitos poetas famosos já foram contemplados
com sonhos maravilhosos.

Lembro do inglês, Samuel Coligdere, que sonhou
um sonho dentro de outro sonho,
então, numa noite, tocou uma flor no paraíso
e ao acordar a flor estava no leito do poeta.

E, Roberto Carlos, que sonhou
com o quintal do vizinho florido,
e ao sair à porta, depois de acordar
o vizinho estava de mão estendida
lhe oferecendo uma flor.

Entre tantos, ainda tem Raul Seixas
sonhando com a terra parada por um dia.
Imagine um dia inteiro, o mundo isento de maldade.
Que maravilha!

Pois é, mas as pessoas comuns também sonham,
ainda que sonhos não tão edificantes quanto.
Inclusive eu guardo comigo
um sonho adormecido há muito tempo:
Eu sonhei que era um personagem
do dramaturgo Plinio Marcos,
em fuga para a Noruega.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ARAPUCA

No início das eras
o homem primitivo percebeu
que usando apenas a força bruta
não seria capaz de atravessar a planície do tempo.
Então, com um pingo de malícia
inventou a arapuca.

Esse artefato rudimentar
talvez tenha sido responsável pela conservação da espécie,
pois com ele, o homem logrou os animais
através dos séculos.

Depois o artefato foi remasterizado, burilado, guaribado
e hoje o encontramos nas grandes metrópoles, principalmente,
em épocas eleitoreiras.
Dizem os especialistas que as arapucas são infalíveis
quando colocadas estrategicamente
pois criam campos magenéticos,
sucçores de votos por excelência.

Talvez, um dia no futuro,
os votos adquiram anticorpos resistentes
e se transformem em presas difíceis, 
mas até lá...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O COMÍCIO

Ontem, nós ornamentamos a praça,
fechamos as ruas adjacentes,
retiramos os vadios das esquinas
e ficamos esperando a festa.
Vieram os representantes de todos os partidos;
a gente exultava apreciando
os belos discursos pronunciados
por aqueles senhores bem-nascidos,
perfumados e bem vestidos.
Depois veio a imprensa inteira
para credibilizar o evento
e também vieram os músicos,
e executaram as tops da parada,
e foi grande o deleite geral;
nós que ali estávamos,
recitávamos em êxtase:
liberdade, igualdade e fraternidade.
Mas nem tudo é perfeito na terra
e êfemeras, as alegrias deste mundo,
então, eis que de repente surgiu
a turba formada por doentes, mendigos e famintos
e o cheiro da miséria se instalou no ar,
e o medo preencheu todas as lacunas disponíveis,
e como se uma bomba de gás letal
houvesse sido lançada no espaço;
os políticos engomados debandaram,
os músicos populares fugiram,
a mídia toda escafedeu.
Até parecia que o mundo se acabava,
o pânico tomou conta de tudo
e nós estamos correndo até agora.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

SEJAMOS BRASILEIROS!

Meu Deus brasileiro,
hoje é 7 de setembro
neste Pa-tro-pi,
majestoso continente
que vai lá em cima no Yapoque
e desce aqui em baixo no Chui.

Meu Deus Tupiniquim perdoa
teus filhos estúpidos,
que tantas vezes esquecemos
que somos brasileiros
e cometemos tantos crimes bárbaros
e pisoteamos este chão,
queimamos esta  terra,
envenanamos nossos rios,
assassinamos nossos indios,
negamos a educação aos carentes,
esquecemos da sáude do povo,
retiramos  a segurança das ruas...

mas, cinicamente, batendo no peito, gritamos:
somos patriotas!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

João da Silva

João da Silva
roubou o discurso
de um candidato de primeira eleição
e comeu o pão que o Diabo amassou;
em meio às agruras do Presidio Central,
desejou o suicídio, mas , adaptável por
excelência, como todo  homem, João
acabou assimilando o trato da casa.

Quando João obteve a liberdade
viveu o inferno discriminatório.
Na condição de ex-presidiário
lhe faltou o afeto, o emprego, o pão...

Revoltado, João roubou a caneta do Prefeito
e foi preso pela 2ª vez,
e reencontrou  os antigos colegas,
a moradia e um pouco de comida;
mas logo foi solto.

E veio a miséria, a fúria, a  raiva...
Sob o império da fome, com o olhar lacrimejante,
João babava, sonhando com a ração servida na cadeia,
mas entre o delírio e a realidade
se sobrepunha o cansaço, a loucura e a neurose.
Desesperado, numa noite, João juntou as poucas forças
que ainda lhe restavam, invadiu o Presídio
e matou o carcereiro.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Outro dia, quando caminhava
melancolicamente pelo parque,
lembrei-me do mestre Beethoven
e uma melodia divina
entrou-me pelos ouvidos
e por momentos, tudo
transformou-se à minha volta.

Era como se eu houvesse
adormecido neste mundo
e despertado no paraíso,
e aquele estado de leveza
acompanhou-me por algumas horas
daquela tarde límpida
enquanto sons maviosos
de passáros raros
anunciavam a primavera
que estava a brotar
no casulo das estações.

Então, esqueci as dores da minha alma
e as mazelas do cotidiano,
e com o pensamento dirigido para o alto
agradeci ao nosso pai
a concessão de momentos sublimes
dipostos a nós, pecadores,
mas  raramente os aurimos
porque  nos afastamos
das coisas simples da vida.

domingo, 1 de agosto de 2010

TAPES

Tapes, teipes e tipos,
a cidade, a terra, os indios,
a lagoa, a areia e o campo.
O vento vinha da praia
abrir nossas cortinas,
parece que vejo as gaivotas
trazendo o cheio da infancia.

A lagoa, o trapiche, o espaço.
O primeiro beijo na areia.
O ontem, o retorno, a quimera;
volume de água antiga,
mirando a praia no tempo,
um sonho velho, viajante,
barco encalhado no sal
da lágrima seca ao vento

A chuva da manhã, o arco-iris,
o cavalo, o passeio e a brisa.
O cheiro do malmequer sobre a relva
e o gosto do fruto maduro.
O perfume dos eucaliptos vestindo a campina,
o aroma de mel no corpo,
na tarde suave de junho,
o sol transpondo a curva,
que traz a noite no bojo
e os faróis dos vaga-lumes.

Meu pai trazia à tarde
o cheiro forte do bagre
pescado a linha no "quarenta",
lembrança, efeito bumerange
páginha virada...faz tempo!
Tempo que a memória alcança...
o desejo queimando o corpo
na noite cálida de abril,
na rua treze de maio:
a carne vendida a quilo
na balança do prostíbulo.

A areia quente da praia
beijando a pele bronzeada
da sereia, distante, à toa
viajando além do horizonte
no outro lado do mundo
onde o céu corta as águas,
a namorada da lagoa sonhando
com o príncipe das Arábias.

Eu quero andar à esmo,
atar as pontas do tempo,
rever o meu Pessegueiro
derramando flor no espaço,
colher o figo maduro
e degustá-lo sem pressa
no quintal da minha vida.
Eu quero marcar um gol
no campo do  índio Ubirajara
no final do segundo tempo,
eu quero dourar o sonho
na sombra daquele umbú
antes que o jogo acabe.

Eu quero ir na prainha
logo abaixo da ponte,
beber no côncavo das mãos
a água azul da fonte,
na fonte  que já não existe
Quero levar meu corpo na cachoeira,
banhar a alma à noite...
Ah!... Devaneios de um homem triste.

Homens, pobres mortais
trazemos dentro de nós
um cordão magnético
atado às primeiras lembranças
por isso falo alto o teu nome
e mesmo carente de talento
tento pintar o teu rosto,
e, se algum dia por equívoco
me extraviar na poeira mundana,
mas qual filho pródigo,
à casa retornarei,
através de um poema.