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sábado, 13 de fevereiro de 2021

SOMOS CHATOS!

 À medida que envelheço vou ficando chato,

porque o mundo parece-me fora dos eixos.

Antigamente quando ouvia os reclames

de  pessoas  inseridas  na  faixa etária

em que  me encontro agora, pensava:

quando ficar maduro serei diferente!

Foi engano. Estou igual àquela gente

que eu criticava por excesso de zelo.

Pior de tudo é que é tempo perdido

querer mudar o mundo através

de palavras, teorias, pensamentos..



quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

SONS E TELAS

 Era manhã e chovia suavemente

quando acordei sob os acordes de Vivaldi

executados magistralmente pela passarada

e o meu ser ficou entregue á magia.


Momentos assim plenos de contentamento

dizem ao meu coração  que é bobagem

gastarmos energia em buscas aleatórias

em alvos improváveis ditados por modismos...


Houve um tempo em que os tapumes

escondiam as belezas naturais da cidade,

mas hoje surgiram tapumes mais nocivos:

são as telas conectadas ao túnel digital.


domingo, 22 de novembro de 2020

QUE VÍRUS XAROPE!

 Diziam-me que o "coronga"  era chato,

mas não imaginava tanto.

Faz uma semana que a coisa não me larga

Este hospedeiro é um chiclete indesejado.

Ando todo o tempo na canseira,

com dores pelo corpo inteiro,

  dificuldade com os alimentos,

pois o paladar ficou horroroso.

Vou encerrando por aqui

antes que a sonolência me apague...


domingo, 15 de novembro de 2020

ESTE CORONA!

 Meu hospedeiro é muito chato

 Provoca-me a todo o instante.

Lê meus pensamentos

e os replica sempre..

Hoje, por exemplo,

sugere-me que eu vá à rua:

seja patriota - vote!

Digo que não e não e não

Não irei infectar as pessoas sadias

Ele fala que sou preconceituoso:

se o "Tio Sam" fosse o meu pai

por certo sairias à rua contente

e me tratarias com devoção e carinho.



domingo, 8 de novembro de 2020

POIS ENTÃO !

 

 Naquele tempo
saí à rua pedindo
eleições diretas:
gritando por direito
de votar.
Meu tio olhava
aquilo de longe,
dizendo:
Queres engordar
as demandas
dos oportunistas,
pensado que fazes
grande coisa.
Eu retrucava:
a coisa está errada,
é necessário mudar
a estupidez regimentar,
que não permite
o eco da minha voz.
O velho treplicava:
se queres mudar algo
não delegues nada a ninguém.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

VOTOS DE CORDEL

 

No dia das eleições,
os votos entraram de greve
a ao contrário dos movimentos
orquestrados pelos sindicatos,
os votos estavam quietos.

Os candidatos nervosos,
falavam coisas desconexas,
prometiam mandatos decentes,
procuravam vender a impressão
de honestidade repentina.

As horas foram passando,
as urnas estavam vazias,
os candidatos foram às ruas
tentando adular os votos.

Foi um festival de cartazes,
faixas, bonés, camisetas,
música, doces e mimos,
mas os votos permaneciam escondidos.

Lá pelo meio da tarde
os candidatos desesperados
foram atrás da polícia.
Pediram que a lei prendesse os votos.

Àquela altura do evento,
apareceu a mídia de fora
para ver o confronto de perto.
A força repressiva diante dos holofotes,
constrangida, calculista, decidiu:
não vamos achincalhar nossa imagem!
Ficaram de braços cruzados..

Veio o dia seguinte.
A mídia não falava de outra coisa
As manchetes dos jornais mostravam
os cargos de prefeitos  vacantes.
Os votos trocavam mensagens:
melhor não termos governantes
do que entrarmos na onda daqueles mendazes!

quinta-feira, 2 de julho de 2020

TAPES

Tapes, teipes e tipos,
a cidade, a terra, os indios,
a lagoa, a areia e o campo.
O vento vinha da praia
abrir nossas cortinas,
parece que vejo as gaivotas
trazendo o cheio da infancia.

A lagoa, o trapiche, o espaço.
O primeiro beijo na areia.
O ontem, o retorno, a quimera;
volume de água antiga,
mirando a praia no tempo,
um sonho velho, viajante,
barco encalhado no sal
da lágrima seca ao vento

A chuva da manhã, o arco-iris,
o cavalo, o passeio e a brisa.
O cheiro do malmequer sobre a relva
e o gosto do fruto maduro.
O perfume dos eucaliptos vestindo a campina,
o aroma de mel no corpo,
na tarde suave de junho,
o sol transpondo a curva,
que traz a noite no bojo
e os faróis dos vaga-lumes.

Meu pai trazia à tarde
o cheiro forte do bagre
pescado a linha no "quarenta",
lembrança, efeito bumerange
páginha virada...faz tempo!
Tempo que a memória alcança...
o desejo queimando o corpo
na noite cálida de abril,
na rua treze de maio:
a carne vendida a quilo
na balança do prostíbulo.

A areia quente da praia
beijando a pele bronzeada
da sereia, distante, à toa
viajando além do horizonte
no outro lado do mundo
onde o céu corta as águas,
a namorada da lagoa sonhando
com o príncipe das Arábias.

Eu quero andar à esmo,
atar as pontas do tempo,
rever o meu Pessegueiro
derramando flor no espaço,
colher o figo maduro
e degustá-lo sem pressa
no quintal da minha vida.
Eu quero marcar um gol
no campo do  índio Ubirajara
no final do segundo tempo,
eu quero dourar o sonho
na sombra daquele umbú
antes que o jogo acabe.

Eu quero ir na prainha
logo abaixo da ponte,
beber no côncavo das mãos
a água azul da fonte,
na fonte  que já não existe
Quero levar meu corpo na cachoeira,
banhar a alma à noite...
Ah!... Devaneios de um homem triste.

Homens, pobres mortais
trazemos dentro de nós
um cordão magnético
atado às primeiras lembranças
por isso falo alto o teu nome
e mesmo carente de talento
tento pintar o teu rosto,
e, se algum dia por equívoco
me extraviar na poeira mundana,
mas qual filho pródigo,
à casa retornarei,
através de um poema.