sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

TIRO O CHAPÉU E VEJO DRUMMOND NAS ALTURAS

Outro dia, um camarada
entre a graça e o chiste
disse-me umas coisas
pensando quem sabe
que eu fosse me aborrecer.
Mas o cara é meu amigo,
portanto achei engraçado
a ironia daquele instante
ao dizer que eu não cabia
na "Política Literária"
do velho Drummond.

Política literária

Carlos Drummond de  Andrade

O poeta municipal
Discute com o poeta estadual
Qual deles é capaz de bater o poeta federal.


Não fiques preocupado, caro amigo,
porque não sou poeta distrital;
vivo na província, também não sou
nem poeta  do  meu bairro
nem da minha rua.
Eu apenas poetizo
lampejos de momentos.







quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

ANTES DA ALDEIA GLOBAL

Naquele tempo,  gostava
de ouvir o som das palavras,
principalmente das contidas
no universo das proparoxítonas
Muitos daqueles vocábulos
soavam magníficos...
Naquela época, alguns
dos meus prediletos,
se ainda me lembro
eram: clavícula,
ernergúmeno,
farândula,
notívago,
síndrome,
arquétipo,
etc...
Isso foi antes  de Marshall Mcluhan
vaticinar a aldeia global,
porque naquele tempo, havia tempo...
Havia tanto tempo que o PhD de Harvard,
Timothy Leary e seus alunos  faziam
excursões astrais, regadas com LSD...


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O RIO

Quando eu vi
o rio de perto,
que susto,
que espanto,
que assombro!
Meu Deus,
de onde vem
tanta água?
Esse líquido
vem rolando
pelo mundo
em linha reta,
faz curvas,
muda de rumo?
E ele corre sempre
na direção de onde vem o sol?
O rio é tipo gente,
que nasce, cresce
e morre?
Mas tantas indagações
ficavam sem respostas,
porque essas perguntas
eu fazia a mim mesmo!

sábado, 18 de fevereiro de 2017

FORA DE MODA

O primeiro cigarro posto na boca
queimou-me a língua e os dedos,
produziu-me um acesso de tosse
e um embrulho no   estômago,
mas  estava contente,   porque
seguia o mandamento da mídia;
eu surfava na crista  da   onda
Blindei o pulmão com a fumaça
evolada dos tabacos do mundo.
Achava aquilo bonito e natural:
rostos felizes naqueles flashes
dos comerciais de tv da época.
Mas o tempo passa e um dia
a gente pensa, a gente cansa.
a gente sai do circuito e percebe
que é  bom estar fora de moda.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ZORRA

É sabido de toda a gente
que os órgãos nacionais
da administração pública
na prática não funcionam,
exceto, cobrança tributária,
que é infalível e mortífera...
Em meio à zorra decadente,
deste barco à deriva,
algumas atitudes isoladas
despertam minha atenção
pela dimensão magnânima;
atos deprimentes/comoventes
de afazer desinteressado.
Pois outro dia, um senhor
estava a tapar buracos
numa rua aqui na capital
próximo da Assis Brasil.
justo no seu dia de descanso,
porque já não aguentava
ver os carros quebrando molas
numa sucessão de buracos.
Quando lhe perguntaram
porque fazia aquilo
respondeu meio tímido:
acho  que alguém tem que ir à  rua
dar início ao conserto das coisas
que foram abandonadas
pelos órgãos (in)competentes,
pois caso contrário; logo, logo
voltaremos ao caos primitivo.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

MUNDO

Naquele tempo
eu tinha a impressão
de  que o mundo
acabava logo ali,
naquela esquina,
onde era o colégio
ao lado do campinho
das nossas peladas.
Mas havia um mundo
paralelo, grandioso,
 e poético,
composto de livros
onde eu me achava
e me perdia
e me reencontrava,
em estado de graça.


domingo, 12 de fevereiro de 2017

O AMOR AINDA ESTÁ NA PELE

Lendo, outro dia,
Fernando Pessoa
deparei-me com este achado:
"Eu gosto tanto dela que não sei como a desejar"
Minha gente, imaginem
um nível evolutivo assim!
O amor seria absurdamente belo
se fôssemos menos sensuais,
se fôssemos menos corpóreos
se fôssemos  mais espirituais.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

GOLPE?

Há momentos em que penso
que não somos racionais
e nos deixamos embalar
pelas paixões primitivas
Não sabemos examinar
com equanimidade,
as questões mundanas.
Hajam vistas, as querelas
em torno das paixões inúteis
relativas a nossa "política".
Digo, do balaio de gatos
em que se transformou
a condução política, aqui,
 nos últimos trinta anos...
Mas, se retrocedermos mais,
chegaremos às maracutaias,
da ditadura, da República Velha,
do Império, do Brasil Colônia...
Pois agora a palavra "golpe"
é proferida com raiva, com ódio,
com fúria,  pelos     adeptos
arregimentados das seitas
societárias do espólio tupiniquim.
Mas que golpe? A troca de seis
por meia dúzia?
Gente, golpe, se alguém o praticou
foi Pedro Alvares Cabral, (inconscientemente)
que ao invadir a grande nação indígena,
da terra do Pau Brasil,
deu início ao extermínio de um povo
 trucidado, pouco a pouco, dentro da própria casa.







quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

HEMINGWAI

Nestas manhãs abençoadas
de temperaturas amenas,
oásis dentro   do    verão,
lembro-me da sugestão
de Enest Hemingwai,
escritor norte-americano:
para criar alguma coisa
escreva a frase perfeita,
sem adornos e retoques,
e terás um bom início.
Mas frases são feitas
de sons   e   palavras,
ferramentas voláteis,
olhando de longe,
o versejante a cismar,
procurando elementos
para mais um poema,
que será esquecido
na varanda do tempo.




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

FUGI PARA NÃO SER A BOLA DA VEZ

Os meninos daquela rua,
bons de pontaria,
faziam tiro ao alvo
nas formigas gordas.
mas logo cansaram
da brincadeira
e passaram a  mirar
nos sapos insones
À medida que o metier
deixou de proporcionar
a emoção desejada
 atacaram os gatos
da vizinhança.
Isso faz tempo
e eu os perdi de vista,
porque deixei de passar
por aquele bairro,
quando começaram
a alvejar os vira-latas.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

AS PEDRAS

Caro mestre Drummond,
disseste que havia uma pedra
no meio do caminho
Pois é! Agora tem uma pedreira
obstruindo o caminho!
E agora José?, digo,
e agora Drummond?
Tu  sabias que as pedras
teriam vida longa
por isso te especializaste,
lapidando teus poemas,
para a gente cantar
à guisa de salmos
diante das pedras.
As pedras nascem,
se multiplicam,
mas não morrem,
e estão nas ruas,
nos mercados,
na Petrobrás,
no Congresso...
Caro, Drummond,
exorciza as pedras!




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

SEMEADOR DE VENTOS

Lembro-me do tempo de infante
quando eu cultivava o gosto
de ouvir   frases feitas
havia uma que soava
tronitruante:
"Quem semeia ventos,
colhe tempestades"
Bastava o céu ficar feio
com promessa de chuvarada,
eu sai sugerindo à minha volta,
detenham o semeador de ventos!